❝Em menos de dez minutos você se lembra de tudo. Você se lembra o motivo ou os motivos que fizeram tudo se perder. E você se lembra que não é culpado e que, talvez, os outros também não sejam. Assim é a vida. Você se lembra que o grande amor da sua vida. O maior. Aquele que você nunca superou. É o tipo da pessoa que faz questão de ficar a noite inteira longe de você só porque acha charmoso ficar longe de você e não porque queira ficar longe de você. Ele prefere ser descolado do que humano. E você lembra daquela sensação que sentia ao lado dele. De solidão profunda. E você descobre que ele acha que saudade ou vontade de fazer carinho se resume a uma passada de mão na sua bunda ou uma apertada no seu peito. E você percebe que a vida dele, que você tanto colocou no pedestal, pode ser um pouco boba ou até mesmo triste. Com carros que correm para esbanjar uma grana gasta com coisas sem amor, bilhetes de reclamação de barulho, filmes onde cunhadas se comem e amigos que ligam na madrugada achando que puteiro pode ser uma opção legal. Em minutos você entende como ninguém o que te trouxe até aqui, tão longe dele. Me senti visitando meu próprio cemitério. Com amigos e amores mortos e enterrados. Pessoas que a gente desenterra de vez em quando pra ter certeza que fizemos a melhor escolha enterrando elas. Pessoas que a gente lamenta a distância, afinal, já foram tão importantes e… Será que não dá para começar tudo de novo e tentar acertar dessa vez? Pessoas que a gente tenta se agarrar para não sentir que a vida caminha para frente e isso significa, ainda que muito filosoficamente, que um dia vamos morrer. Nossos amigos vão ficando para trás, nossos amores, nossos empregos, casas… Um dia seremos nós a desaparecer. Mas a lição que eu aprendi é que não vale a pena consertar um carro pela décima vez. É mais fácil comprar um novo e fim de papo. Afinal, eu bem que tentei consertar meu relacionamento com algumas pessoas e só ganhei mais e mais poses e menos e menos verdades. Ainda que doa deixar pessoas morrerem, se agarrar a elas é viver mal assombrado.❞
“É isso. Acabamos. Chegamos ao nosso fim. O tão temido dia chegou, o dia em que as reticências de nossa história dariam lugar ao ponto final. Dá pra acreditar? Nossa história teve um fim. Não um “fim” que daqui há algumas semanas retornaríamos, dessa vez foi diferente. A ficha ainda não caiu, ainda não consigo imaginar que tudo foi para o lixo, ou melhor, por água abaixo. As horas que passamos sentados no chão ao lado da tomada com o celular carregando, e o pior, com a coluna matando, só esperando o outro responder uma mensagem que levaria a dor embora e trazia um sorriso bobo que ambos, fazíamos questão de estampar no rosto. Eu nunca te beijei na chuva, nem ao menos segurei sua mão para caminharmos numa praça pública. Nunca te mandei flores, nem sequer um cartão de amor. Eu nunca vi sua cara de sono ao acordar, nem ao menos o som da sua voz doce me desejando um bom dia depois de termos feito amor. E por mais irônico que seja, nunca nem fizemos amor. Somos jovens, querida. Talvez o nosso amor tenha acontecido na hora errada, ou algo do tipo. Tínhamos que acontecer, só não tínhamos que ficar juntos. Minha hipótese é a seguinte: O universo fez lá suas magias e fez com que nos conhecêssemos, mas por um motivo maior, seja lá qual seja ele, não ficamos juntos. Talvez tenha que acontecer no futuro, ou nunca mais, quem sabe? A verdade é que as incertezas são maiores do que as certezas. Mergulhamos fundo nisso tudo, como se não soubéssemos as consequências. Só queríamos um ao outro. A vontade foi tamanha que tropeçamos em nossos próprios sentimentos. Foi intenso. Foram linda as mensagens trocadas, os carinhos, e melhor ainda, os beijos. Mas acabou. Nós nunca vamos cumprir nossos planos que tanto planejamos, simplesmente acabamos. Eu não culpo você, querida. Eu me culpo, e muito. Eu me culpo por não ter te comprado flores, te dado chocolates, ter feito birra e armado barracos por motivos bobos. Eu me culpo por nunca ter exagerado no ciúmes ou em qualquer outra coisa fofa que fazem esses casais do filmes. Eu me culpo principalmente por não ter te dito o quando você significava pra mim. É isso. O que mais posso dizer? Que sinto muito? Que queria outra chance? Não, meu amor. Se eu tivesse mais uma chance de mudar isso tudo, eu desperdiçaria. Porque o que vivemos foi um romance real, repleto de problemas e dificuldades, entretanto, amamos mesmo assim, deixamos tudo pra lá, demos as costas para o mundo e fomos criar o nosso. Eu nunca esquecerei a cena de hoje, não por você ter me negado um beijo, virado o rosto, ou ter feito cara feia quando forcei mais ainda. Eu fui um babaca, eu sei. Eu apenas tentei fazer como nos grandes romances. Perguntei à ti: Vais agora para casa? E você me respondeu em voz baixa: Sim. Falei a seguinte frase: Já que você já vai, antes de qualquer coisa, eu tenho que fazer isso. Eu tentei te beijar, não uma vez só, mas algumas. Confesso que partiu meu coração, mas e dai? Já parti o seu centenas de vezes e mesmo assim você continuou ao meu lado, não seria justo eu te crucificar por esse único erro. Quando olhei em seus olhos eu me dei conta do que eu estava enfrentando. Você já não era mais minha. Seus olhos, querida, já não brilhavam mais ao me ver, já não possuíam a mesma alegria de me ver como antes. Naquele instante eu vi realmente o que eu havia perdido. Uma garota incrível, forte, maravilhosa, linda, e que, mesmo com todos os meus defeitos, aprendeu a amá-los. Ela me beijava como quem me beijaria pela última vez, todos os dias. Mas, naquele momento, tudo isso havia desaparecido. Ela nem ria mais das minhas piadas. Hoje eu vi o quanto ela fica linda enquanto sorri. Eu deveria ter parado para ter visto isso antes, mas de que adianta? Chegamos ao ponto final. Chegamos ao último degrau de nossa escada, resta agora, descer cada um deles lentamente e começar essa jornada mais uma vez, só que ai que está a pior parte, não será mais com você. Eu só quero te pedir perdão, querida. Perdão por tudo, me perdoe. Eu nunca te fiz bem, e nunca vou fazer. Não quero que isso sirva como um bilhete de reconciliação, pelo contrário, quero que seja um de adeus. É com o coração partido que eu te digo: Tenha uma boa vida sem mim.”
— Já dizia o velho Bukowski: Tudo acaba um dia, então pare com essa choradeira.
“Machismo é uma espécie de orgulho masculino ferido. Ou melhor, o seu ego. Digo, é como se nós, homens, usássemos esse tal orgulho hétero, cheio de ideias primitivas, para tentar proteger aquela fama de “Homem é o sexo forte”. Mas se pararmos para analisar, todo homem é machista. Não há um sequer que escape. Quer provas? Pois bem. Começamos lá na Grécia antiga com o então famoso filósofo Aristóteles. O mesmo disse a seguinte frase: “A natureza só faz mulheres quando não pode mais fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior”. A frase fala por si só, mas não, isso não é machismo. Mudando de filósofo, vamos falar um trecho da frase do Zaratustra. “A mulher deve adorar o homem como a um deus, toda manhã por 9 vezes consecutivas, deve ajoelhar-se aos pés do marido e, de braços cruzados perguntar-lhe: Senhor, que desejais que eu faça?”. Qual tipo de pessoa é declarada definitivamente inferior ou superior à outra? Mas claro, não, isso não é machismo. Voltando para a atualidade. A mulher exercendo a mesma profissão que um homem, recebe 39% menos, só pelo fato de ser mulher. Mas não, não é machismo. Indo para um assunto mais polêmico, religião. É, estranho. Afinal, o intuito de toda crença ou religião, é de estabelecer a igualdade à todos. Por exemplo, no Alcorão diz claramente que se a mulher não obedecer o seu marido, ele tem total direito de bater nela. Mas não, isso não é machismo, pelo contrário, isso é tradição. Tudo bem. Nos dias atuais, existe a tal da Lei Maria da Penha. Onde a mesma, diz que nenhum homem possui o direito de bater em uma mulher, por ela ser mais frágil. Mas não existe lei que impede que uma mulher possa bater em um homem. Mas então, se não for machismo, o que mais pode ser? Feminismo? Pode até ser. Afinal, mulheres indagam tanto sobre o apelido de “sexo frágil” e fazem questão de encher a boca e dizer “Mas vocês, homens, não dão à luz aos filhos, não têm cólica, muito menos TPM” tudo isso para mostrar que são fortes. Que não existem diferenças entre o homem e a mulher. Mas se não existe, porque a mulher sempre pede pra um homem pegar as compras no carro, ou montar algum móvel, dizem elas que isso é papel de homem, que homem tem mais força. Mas ué, meio contraditório, não eram vocês que se diziam ser o “sexo forte?”. Tudo bem, nada disso é machismo ou feminismo. Saindo deste assunto e indo de encontro à adolescência, se uma garota postar foto de biquíni na praia ou andar com roupas curtas, elas são taxadas como “biscates” por outras mulheres, mas se os homens postarem fotos sem camisa ou andar sem elas nas ruas, eles são o que? Vagabundos? Ou se um homem ficar com 10 numa balada e a mulher ficar com a metade, ela é oferecida, mas o homem não, ele é idolatrado por seus amigos, ele é o pegador. Mas não, nada disso é machismo. Ao ver um acidente na rua em que o motorista, seja A motorista, é motivo para zoação, afinal, segundo os homens, mulher não sabe dirigir. Tudo bem, não é machismo. Desde pequenos estamos acostumados a ver em desenhos animados a mãe ficar em casa cuidando da casa e do filho, enquanto o marido chega em casa à noite depois do exaustivo e estressante trabalho. Afinal, trabalhar é coisa pra homem. Quem dirá nossa presidente Dilma Rousseff, que lutou contra a ditadura e ainda foi presa e torturada. Talvez seja o momento ideal para uma mulher tomar conta da presidência brasileira e amenizar um pouco do machismo existente na sociedade. Enquanto à esportes, futebol é coisa pra macho. Só homem joga. O mercado de jogadores masculinos movimenta bilhões todos os anos. Enquanto os das mulheres lutam para chegar na casa dos milhões. E no casamento? A mulher é quem herda o sobrenome do marido. Como um sinal de que a partir dali ela é total submissa ao mesmo. Mas não, nada do que eu falei é machismo. Agora indo para uma questão polêmica, a conta quem paga é o homem, sempre. Mas ué, não vivemos em um mundo moderno? Tudo bem. Agora voltando a falar dos homens. Homem tem que ser ogro. Tem que tomar cerveja, ser viciado em futebol, arrotar, ser mal educado, sujo e ainda tem que chamar palavrões, caso seja o oposto disso tudo, ele é Gay. Mas não, isso é o cúmulo do absurdo, claro que não é machismo. Agora vá às ruas, pergunte para qualquer homem se ele é machista e veja o orgulho que o mesmo terá de encher o peito e responder: Não, não. Claro que não, machismo não existe. Não sei porque, mas quando ouço isso, me soa um pouco irônico, não acha?!”
“Eu deveria ter segurado sua mão.
Sabe, eu nunca tive uma autoconfiança, sempre fui uma pessoa calada, tímida, quieta. Com medo do mundo, com medo de tudo. Mas quando se tratava do amor, eu sempre fui o mais vulnerável. Eu sou do tipo que ama em segredo, sabe? Que não diz o que realmente sente. Mas de uma certa forma eu sempre acabo me doando de corpo e alma, acabo até amando por dois, sempre acabo amando sozinho. Bem, tudo começou na 6° série, eu conheci uma garota, ela não era da mesma escola que a minha, nem do mesmo bairro, ela morava longe, nos falávamos apenas por celular e internet. E no decorrer do tempo, eu fui me aproximando cada vez mais dela, e o sentimento aumentava mais a cada segundo. Mas ela morava longe, seria quase impossível para nos vermos. Mas isso não me impedia de amá-la, era estranho, ela tinha namorado, eu sabia que era encrenca, mas eu não conseguia entender o porquê que eu não havia desistido dela ainda. Eu não sabia se era aquele sorriso encantador que ela tinha, se era o som da sua voz, eu realmente não sabia o que mais me chamava atenção nela. Me passou pela cabeça em ligar para ela e dizer tudo o que sentia, tudo mesmo. Mas como sempre, a minha timidez impediu. Na 7° série, o sentimento não havia mudado, pelo contrário, era bem mais intenso. Nós ainda nos falávamos e ela ainda estava namorando. Na 8° série eu comecei a namorar com uma garota, mas sabe aquela sensação de que estava fazendo algo errado? Então, é isso. Eu estava com uma garota mas esperando um “eu te amo” de outra, para largar tudo, eu juro, eu largaria tudo mesmo, jogaria tudo para o alto e iria correndo para os braços dela, se ela tivesse me dito isso. Mas não foi o que aconteceu. No começo de 2012 o seu namoro terminou, eu sabia que era a minha chance, mas ao mesmo tempo não era, ela ainda o amava, eu sabia, todos sabiam. No ano seguinte, eu mudei de colégio, por coincidência o mesmo que o dela. Eu não sabia disso, até que um dia, nos esbarramos no corredor do colégio! Cara, eu juro, eu não consigo tirar aquela cena da minha cabeça, foi a primeira vez que eu a vi. Foi a primeira vez que eu a senti, a primeira vez que eu pude olhar nos seus olhos, primeira vez que eu pude ter a comprovação de que tudo o que eu sentia era verdade. Dentro de 1 segundo passou tudo pela minha cabeça, meio que um filme. E rapidamente voltou junto com minhas lembranças, aquele sentimento perturbador. Naquele momento minha boca disse apenas uma palavra, citou 2 letras, e tudo o que eu consegui dizer foi um simples “oi” , mas meus olhos disseram tantas coisas. Meu coração gritava, mas minha boca permaneceu em silêncio e aquilo tudo o que eu consegui dizer. Ela me deu um abraço apertado e disse:
“— Ei, quanto tempo, não sabia que estudava aqui.”
Respondi:
“— Eu sou novo por aqui, cheguei esse ano.”
Ela com a voz mansa me confortou dizendo:
“— Ótimo, nos veremos mais vezes por aqui.”
Ainda trêmulo, respondi com a voz um pouco assustada:
“— Claro, claro”
Ela me deu outro abraço e disse
“— Agora eu tenho que ir, te vejo outro dia.” Essas palavras eu as repeti milhares de vezes na minha cabeça, e ali eu tive certeza de que nunca esqueceria daquele momento. Algumas semanas depois, ficamos na mesma sala de aula durante uma palestra, e por ironia do destino, eu sentei ao seu lado. Nos falamos o dia todo. Conversamos, rimos e demos boas gargalhadas. Almoçamos juntos. Ficamos muito mais próximos. Eu juro, eu não esqueço de nada, de nenhum olhar, de nenhuma palavra dita, de nenhum carinho trocado, da forma em que ela me olhava, da forma em que ela colocava uma mecha de cabelo para atrás da orelha, eu não esqueci de absolutamente nada. Em um momento eu vi sua mão estendida na mesa, meu coração dizia:
— Segura a mão dela, vai!
E meu medo dizia:
— Não faça isso, você sabe bem que você vai se machucar se fizer isso.
Eu não sabia o que fazer, eu me aproximei, estendi minha mão, mãos trêmulas, mãos que imploravam para fazer um carinho. Aquele momento tinha tudo para ficar marcado como o início de tudo, mas não foi. Aquele mesmo menino calado, tímido, inseguro, voltou. E me impediu de tocá-la. É exatamente isso, quando se trata de você, eu sempre serei aquele garoto apaixonado, estranho e inseguro. Após o almoço, ela partiu. E o pior, para nunca mais voltar. Como assim? É isso mesmo. Voltando para casa, um motorista bêbado passou em alta velocidade na faixa de pedestre e atingiu ela em cheio. Ele fugiu, nem ao menos tentou levá-la ao hospital. Eu me culpo por isso todos os dias da minha vida. E isso aconteceu faz tanto tempo, mas lembro-me bem como se fosse ontem. E hoje, eu olho para o passado com um enorme aperto no peito. E penso o quão jovem e idiota eu era. Eu deixei que o medo me vencesse, ele nos impede de tanta coisa, nos impede de viver, de ser feliz. E hoje eu me pergunto se talvez ela tivesse aqui, talvez se eu tivesse segurado a sua mão e a fizesse ficar. Talvez se eu falasse a ela tudo o que eu sentisse e nós fôssemos até a sua casa juntos eu poderia ter salvado ela. Meu Deus! Eu deveria ter feito tanta coisa. Pena que a vida não nos permite uma segunda chance, porque eu juro que se eu tivesse, eu faria tudo diferente. Mas a vida passa tão rápido amigo, as oportunidades vão junto, uma escolha, ela muda tudo, um “oi” que não foi dito, um beijo que não foi dado, um telefonema não atendido, poderia mudar tanta coisa. Olhe só para mim, eu sou a prova viva disso. Talvez se eu tivesse segurado a mão dela naquela hora tudo poderia ter mudado, eu a fizesse ficar, talvez se eu a chamasse para sair mais uma vez atrasaria ela por 1 minuto e a salvasse, talvez se eu tivesse lutado mais um pouco eu conseguisse vencer meu medo, talvez se eu tivesse feito algo diferente ela estaria aqui comigo. Essa palavra me assombra, “e se?”, não espere acontecer algo para perceber quem você ama. Olhe só para mim, falando sozinho, desabafando minhas mágoas em uma folha de papel, na esperança de que talvez tudo isso seja um sonho, e que quando eu acordarei eu estaria lá, naquele restaurante, prestes a segurar a mão dela. É angustiante isso. Eu estou aqui sozinho, apenas com minhas lembranças e essa sensação horrível que é esse “quase”. Meu Deus, eu deveria ter segurado a sua mão, como eu deveria.”
— Essa é a história do meu primeiro e quem sabe, último amor. Osvaldo Fernandes.
“Era dia de sábado, o céu estava nublado, poucas pessoas pelas ruas. Me levantei tarde como de costume, me debrucei sobre a janela e observei o céu escuro por um tempo. Desci as escadas lentamente até chegar à cozinha. Sentei-me em uma das cadeiras, sozinho, era apenas eu e meus pensamentos solitários. Peguei minha xícara de café, peguei um jornal velho que estava sobre a mesa e o li por alguns minutos. Após, me levantei e fui até o banheiro tomar banho. Enquanto eu tirava a roupa, liguei o chuveiro, não coloquei água quente como pessoas normais, gosto de banhos gelados, esfriam a alma. Enquanto a água escorria pelo meu corpo, eu planejava o que iria fazer no resto do dia, eu poderia assistir um filme, e ficar a tarde toda no sofá assistindo tv como de costume, mas resolvi ir até a rua. Me vesti com um cachecol escuro, uma camisa manga longa branca, uma calça jeans escura e chinelos velhos. Fui até a rua tentando espairecer, sentei-me em um banco da praça que era próxima até minha casa. Lá, fiquei observando os pássaros, o céu estava escuro e eu mal podia vê-los. De longe eu ouvia a voz de uma garota, ela sorria alto, olhei para ela e vi que ela estava sozinha. Achei estranho fato dela estar sorrindo de tal forma,afinal, não havia algo de engraçado naquele lugar. Fiquei calado, após algum tempo, ela falou apontando para o céu:
— Sortudos, não é?
E eu respondi espantado:
— Quem?
— Os pássaros, disse ela!
Eu intrigado perguntei:
— Porquê?
Ela sem demora me respondeu:
Mal sabem eles, mas nasceram com uma sorte tão grande! Podem voar para onde quiser quando as coisas estão difíceis. Sinto inveja disso! Eu queria ser como eles. Queria poder voar para bem longe, sumir do mapa por um tempo. Esquecer dos problemas, de tudo e todos.
Eu fiquei calado por um tempo, analisei bem o que ela disse então respondi:
— Verdade, eles têm muita sorte…
Eu sei, estupidamente tosco, mas eu não sou bom em me relacionar com as pessoas. Após esse diálogo, mais nenhuma palavra foi dita.
Após algum tempo, eu me levantei e fui em direção ao caminho de casa, já estava ficando tarde. No meio da caminhada eu me esbarrei com aquela mesma moça que estava na praça junto a mim. Ela tinha cabelos longos, pretos, ela aparentava ter entre 1,65 e 1,70 de altura. Tinha olhos castanhos. Ela sorriu para mim, eu não sei ao certo o que aconteceu, mas meu coração começou a pulsar mais forte, seu sorriso era tão lindo, era contagiante, eu involuntariamente sorri junto . Nos separamos por alguns metros e então eu voltei correndo em direção a ela e falei:
— Ei, não tá afim de tomar um café?
Ela se espantou um pouco, mas respondeu:
— Claro! Adoraria.
Após isso, nós tomamos rumo até uma cafeteria próxima, no caminho eu fiz perguntas bobas, que foram recíprocas.
Ao chegarmos lá, nos sentamos e começamos a falar bobagens, rimos durante algum tempo, até que eu interrompi seu sorriso fazendo uma pergunta:
— Esqueci de perguntar seu nome.
— Milena, e o seu?
— É Nicolas. Bonito nome, eu disse.
Com um tom de risada ela me respondeu:
— Pena que não posso dizer o mesmo com você!
Dei um sorriso e em seguida ela deu aquela mesma risada alta, que me assustou um pouco. Na mesma hora falei:
— Você sempre faz isso?
— O quê? Disse ela.
— Sorri como uma porca no cio. Ela deu um sorriso sem graça, e nós dois rimos por um tempo. A piada era sem graça, mas eu gostava daquela sensação. Eu gostava de ficar ali, com ela, falando besteiras, o tempo passava rápido.
— Tenho que ir, disse ela.
Com voz meio entristecida eu respondi:
— Tem mesmo que ir? Não pode ficar nem mais um pouco?
— Não, eu tenho que procurar algum lugar para ficar este final de semana. Ela respondeu.
— Vai passar quantos dias na cidade?
— Só esse final de semana, to querendo esquecer um pouco do mundo lá fora.
— Não querendo ser oferecido, mas, lá em casa tem um quarto vazio. Seria bom ter alguma companhia por lá. Eu disse.
— Melhor não. Disse ela.
Eu insisti até que ela aceitasse.
— Tudo bem, mas só por esse final de semana, tomara que você não seja um psicopata; (risos).
— Ah, eu sou sim. Cuidado!
Então ela deu um riso bobo e a sensação era de que tudo estivesse completo.
Passamos mais alguns minutos na cafeteria até que fomos até minha casa.
Chegando lá, apresentei os cômodos para ela, e finalmente o seu quarto. Não era lá aquelas coisas, mas até que era aconchegante.
— Então é aqui, gostei! .
— É um quarto extra que eu sempre limpo, caso chegue alguma visita e queira passar a noite.
A noite chegou, fiz panquecas para o jantar e comemos no sofá, assistindo TV.
Em meio ao jantar eu fiz perguntas pessoais para ela. Do tipo, se ela tinha namorado, quantos anos. Essas besteiras.
Após isso, fomos dormir. Ao chegar na cama eu fiquei pensando no que eu tinha feito. Era algo tão estranho, eu acabara de ter a conhecido, e eu a chamei para passar uns dias comigo. Não me leve a mal, mas eu estava precisando de uma companhia. Aquela casa estava precisando de alegria, e era tudo que ela trazia junto a si. Tirando aquele sorriso dela, que até aquele momento eu não conseguira tirar da minha cabeça. Rolei na cama por horas, eu não conseguia tirar aquela moça que eu acabara de conhecer da cabeça. Tive vontade de descer aquelas escadas e ir correndo a beijar. Mas eu não fiz isso. Preferi ficar na minha cama com meus pensamentos e desejos. Rolei na cama por mais um tempo até pegar no sono. Não durou muito tempo. Eu acordei algumas horas depois. Passei alguns minutos na cama, para até então descer e fazer o café da manhã. Desci as escadas silenciosamente. Ao chegar na cozinha me espantei.
Lá estava ela, acordada fazendo o café da manhã.
— Ei, dormiu bem? Ela disse empolgada.
— Oi, dormir sim, e você?
— Sim, aquele colchão é maravilhoso. Nem demorei muito para pegar no sono.
Sussurrei baixinho:
— Ao contrário de mim.
— O que você disse? Disse ela.
— Nada. Então, o que temos hoje para o café da manhã. Disse eu, tentando fugir do assunto.
— Ovos mexidos!
— Sério? Como adivinhou? É minha comida preferida. (Mentira, eu odiava ovos mexidos, mas eu disse aquilo só para deixá-la feliz).
— Eu vi na minha bola de cristal. Disse com um sorriso no rosto.
— Engraçadinha! Eu disse.
Era tão engraçado como nós estávamos tão próximos e nos dando tão bem. Parecia que nos conhecíamos à anos, ou a vidas, quem sabe.
Então sentamos à mesa e comemos. A casa estava em silêncio até que ela disse:
— Tenho que ir buscar minhas coisas.
— Mas você não trouxe tudo naquela mala?
— Não, não. Tenho que ir pegar uns pertences na casa de uma amiga minha.
— Tudo bem; eu disse.
Então ela levantou-se e disse:
— Pode deixar que a louça é minha.
— Não, você é minha convidada. Faço questão.
— Já que insiste. Disse ela.
Então ela foi. Horas depois ouço barulho de porta se abrir. Era ela que havia chegado.
— Pensei que não iria mais voltar; eu disse.
— Haha, claro que eu voltaria. Não tenho para onde ir, esqueceu?
— Ainda tem debaixo da ponte. Eu falei sorrindo.
Ela sorriu então disse:
— Tá me expulsando?
— Não, não estou.
— Bom. Pensei que estivesse.
— (risos)
— Então, deve estar pesada essa caixa, quer ajuda? Eu disse.
— Claro. Me ajuda aqui.
Nós fomos até lá em cima, então eu disse:
— O Guarda-roupas é aqui. Mas só tem esse, se importa em dividi-lo?
— Não, nenhum problema.
Colocamos as roupas nos cabides, então em um momento nossas mãos se encostaram. Então eu segurei a respiração. Olhei para ela, e ela estava me olhando. Ficamos alguns segundos nesse clima, até que eu cheguei mais perto dela. De repente uma caixa cai e nós nos assustamos. O clima foi quebrado. Me odiei por ter deixado aquela caixa cair justamente naquela hora. As horas se passavam, ficamos cada vez mais próximos. Pela noite eu perguntei:
— Quer jantar?
— Estou faminta. Disse ela.
— Ótimo, gosta de pizza?
— Sim, amo.
— Perfeito, de que sabor você gosta?
— Tanto faz.
— Ok, vou pedir uma pizza tanto faz. Tomara que seja gostosa.
Ela riu, então disse:
— Catupiry, ok?
— Ok.
Ligamos para a pizzaria do bairro e ficamos no sofá esperando que ela chegasse. Ela sentou mais perto de mim dessa vez.
— Tá duro. Eu disse.
— O que? Ela falou espantada e com um pouco de medo.
— O sofá, eu disse sorrindo. O que achou que era?
— Nada. Não pensei nada.
— Que maliciosa você; eu disse.
— Falou o anjinho.
A campainha toca.
— Deixa que eu atendo, disse Milena.
— Vai em frente, eu disse.
Então ela se levantou. Foi até a porta e trouxe a pizza. Depois, comemos e assistimos tv por um tempo. Fiquei pensando como que eu faria para conseguir o tal beijo que eu desejara.
— Vou dormir, estou cansada. Disse ela. Ela estava vindo em minha direção beijar meu rosto. Mas eu me virei para lhe dar boa noite, e ops! Nossos lábios se tocaram. Foi uma situação desconfortável e ao mesmo tempo não. Ela ficou sem reação.
— Desculpe, eu iria me vi… Ela me interrompeu dizendo:
— Tudo bem, acontece.
Então eu e ela nos levantamos. Ela foi em direção ao seu quarto. Pensei em ir lá e terminar o que havia começado. E foi isso que eu fiz. Fui em direção a ela, a puxei pelo braço e a beijei. Sabe aquela sensação clichê que dizem por ai de “borboletas no estômago”? Então, me sinto um idiota em dizer isso, mas eu senti. Era algo tão mágico. Nos beijamos por alguns minutos. Então eu a peguei no braço e a levei até meu quarto. Chegando lá, ela tirou a sua roupa e eu a minha. Fizemos amor e então ela adormeceu com a cabeça no meu peito. Confesso, eu não dormir. Fiquei a admirando durante horas. Passei a mão em seus cabelos, alisei seu rosto. E por último beijei sua testa. Dormi como um anjo. Acordei. Não vi ela ao meu lado. Imaginei que estivesse na cozinha preparando o café. Não me importei. Como de costume fui tomar banho. Fui em direção ao guarda-roupas para pegar alguma vestimenta. E então tomei um susto. As roupas dela não estavam mais lá. Desci as escadas correndo gritando seu nome. Milena, Milena? Cadê você?!
Procurei em todos os cômodos da casa. Ao chegar na sala percebi que havia um bilhete em cima da mesa. Então me aproximei e comecei a ler o que havia escrito.
— “Querido Nicolas, ontem a noite foi maravilhoso. Nunca tinha feito amor daquele jeito. O jeito como me beijava, a forma como me acariciava. Tudo foi perfeito. Não só ontem, mas tudo que aconteceu. Não sei como te dizer isso, mas, eu estou partindo, isso não poderia acontecer. Eu não planejava me apaixonar por alguém novamente nem tão cedo. Mas é o que está acontecendo neste exato momento. Não me leve a mal, você é uma pessoa maravilhosa, é lindo, simpático, bondoso, e tem um coração de ouro. Tenho certeza que não ficará sozinho por muito tempo. Me desculpe, mas eu estou partindo. Promete que vai se cuidar? Promete que sempre que lembrar de mim vai dar aquele sorriso? Isso mesmo, aquele seu sorriso que me deixa louca. Promete que não vai esquecer de mim? Saiba que onde quer que eu esteja, eu estou pensando em você e em como me fez bem. Desculpe por tudo, meu querido. Milena.”
Eu não sabia ao certo que faria. Mas imediatamente uma lágrima caiu do meu rosto. Eu não acreditava que isso estava acontecendo. É que pela primeira vez na vida eu havia me sentido amado. Eu subi até meu quarto com o bilhete não mão e fiquei lendo ele inúmeras vezes. Imaginei todas as coisas boas que passamos juntos. Eu a amei tão rápido, era um amor impossível, eu me sentia como uma criança pobre que deseja um brinquedo caro na vitrine de uma loja e que não pode comprá-lo. Eu chorei. Meu Deus, como eu chorei. Chorei até secarem minhas lágrimas, chorei até lavar minha alma. Mas chorar não adiantou de nada, ainda não sei por que chorei tanto, deve ser porque ainda tenho uma esperança boba de que algum dia minhas dores saiam de mim junto com minhas lágrimas ou que pelo menos essas lágrimas lavem e sarem esse meu coração ferido. Gritei várias vezes no travesseiro na esperança que minha dor fosse embora junto com a minha voz. Passaram-se 6 anos e minha rotina era a seguinte: Eu acordava, tomava café e ia até a praça que a vi pela primeira vez, na esperança de que algum dia ela estivesse lá, com aquele mesmo sorriso me esperando e pronta para dizer:
— Eu estava com saudades, meu amor…”
— Prévia do meu primeiro e quem sabe último amor. Osvaldo Fernandes